Para além de apreciar a modalidade em si também gosto bastante de analisar e estudar o futebol e respectivas equipas no que diz respeito à parte administrativa.
Um pouco por todo o mundo existem casos interessantes de clubes bem geridos e de forma extremamente racional conseguindo ao mesmo tempo o respectivo e tão ambicionado sucesso desportivo. Porém, também os há, casos de insucesso que levam quase à destruição de alguns clubes. Nestas situações as razões podem ser várias, desde falta de experiência dos dirigentes no que a gerir uma instituição/empresa diz respeito, desejo irracional de levar o clube mais longe ou de tentar ser o protagonista e prometer/oferecer o que o clube não tem, entre outras razões.
Nos casos em que uma gestão ruinosa ao longo de vários anos leva a falência e por vezes ao desaparecimento dos clubes, a mesma assenta na maior parte das vezes, em viver acima das suas possibilidades, criando passivos tremendos e incapacidade para cumprir posteriormente as suas obrigações junto dos seus credores.
Para evitar isso é preciso estabelecer regras!
E uma das regras, que já muito foi discutida em diversas situações pelas pessoas que regem o futebol mas que nunca deu em nada, seria a imposição de tectos salariais.
Os mesmos existem em outras modalidades, com o objectivo de equilibrar um pouco as equipas que participam numa determinada competição. Através de um maior equilíbrio de forças garante-se jogos mais competitivos, resultados menos previsíveis, o que leva a uma maior disputa pelos títulos e consequentemente um maior interesse por parte dos adeptos em ir aos recintos desportivos, levando a maiores receitas e por aí fora que nem efeito dominó.
No futebol, para além de tentar aproximar as equipas no que diz respeito ao seu potencial, os tectos salariais seriam benéficos para evitar as falências dos clubes e para se impor salários mais homogéneos tanto dentro dos planteis assim como pelas diversas equipas presentes nos campeonatos.
É claro que os clubes ricos e poderosos não devem achar piada a esta ideia, pois iriam perder um pouco a sua força ao recrutar jogadores a clubes de dimensão inferior, assim sendo o lobby fará a sua pressão normal para que os limites salariais no futebol não se apliquem ou levem bastante tempo até entrar em vigor.
Os tectos salariais também não poderão ser implementados de um dia para o outro, os moldes em que irão funcionar devem ser bem estudados de forma a se garantir uma dinâmica de mercado racional e consequentemente uma economia desportiva sustentável.
Em vez de tentar inventar uma roda que se calhar já existe, nada melhor do que olhar para alguns formatos que já existem e são aplicados há diversos anos em diferentes provas de outras modalidades. Casos como a NHL (liga americana de hóquei no gelo), NFL (liga americana de futebol americano), MLS (liga americana de futebol), NBA (liga americana de basquetebol), Aviva Premiership (liga inglesa de rugby) e Top 14 (liga francesa de rugby) são alguns exemplos de provas onde se impõem limites no que diz respeito a salários e aparentemente com sucesso.
Pessoalmente acho que existem dois formatos que poderiam ser válidos para o futebol, mas perfeito seria a combinação de dois.
Um deles seria definir um valor máximo que cada equipa poderia pagar em salários ao seu plantel e caso esse valor fosse ultrapassado, teria que pagar esse valor em excesso a alguma entidade. Essa entidade ficaria responsável por aplicar esse dinheiro numa perspectiva social através de construção de escolas, infra-estruturas para o desenvolvimento da modalidade, etc., algo um pouco à semelhança do projecto 1Goal. Portanto de uma forma prática, e usando números redondos para facilitar as contas, se houvesse um limite de 100 milhões de Euros por época para salários, caso um clube tivesse um encargo de 125 milhões, teria que pagar 25 milhões de Euros como forma de “multa” à entidade respectiva.
Este formato se calhar poderia não ser o mais lógico, pois são poucos os clubes que atingem estes valores em salários e haveria espaço para se continuar a cometer os mesmos excessos em alguns casos, portanto um outro formato que talvez fizesse mais sentido seria a ideia já sugerida no passado pelo G14 em que consistia em gastar apenas 70% do lucro de uma equipa em salários. Mas mesmo aqui poderia continuar a haver um fosso tremendo entre as equipas, pois existem clubes com receitas gigantes, logo continuariam com grande capacidade económica para oferecer contratos milionários e a discrepância para com os clubes de menor dimensão continuaria a ser grande. Logo a solução mais racional seria combinar os dois modelos que mencionei anteriormente, as equipas poderiam aplicar 70% dos seus lucros da época anterior em salários na época seguinte mas sem nunca ultrapassar um limite, por exemplo os 100 milhões de Euros usados no exemplo mais acima. Mas como quem é rico pode pagar toda e qualquer “multa”, pura e simplesmente não se poderia ultrapassar o limite estipulado, como “benesse” cada equipa poderia ter um jogador cujo seu salário não entrasse para o “bolo” da equipa. Vamos imaginar por exemplo o Real Madrid, o somatório dos salários dos seus jogadores não podia ultrapassar os 100 milhões, porém o salário de Cristiano Ronaldo não entraria para o “bolo”. Algo parecido já acontece na MLS, onde se pode ter actualmente 2 jogadores fora do “bolo” dos salários da equipa, mas com ainda outras condicionantes.
Pessoalmente penso que seria um formato que, com algumas arestas ainda por limar, poderia ser interessante de forma a garantir a sustentabilidade das equipas de futebol. Para além disso os salários seriam mais homogéneos pelos diversos campeonatos e o fosso entre os clubes ricos e pobres poderia ser reduzido. Os campeonatos internos seriam mais competitivos nos países onde os títulos são decididos por apenas 2, 3 ou 4 clubes e a nível internacional, os candidatos não seriam sempre os mesmos.